Conceição Evaristo – olhos d´agua…

Conceição Evaristo

Para quem não conhece a autora um bucadinho de poesia e prosa, afinal merecemos uma comemoração, hoje completamos 10.113 acessos!!! De presente para nós um pouco de nós e dela:

Olhos d’água

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando… De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo… Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela… Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lavalava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe.

Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco.Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado… Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?

Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?

E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?

E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos. E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?  Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:

Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

(Cadernos Negros, vol. 28, 2005)

Ana Davenga

As batidas na porta ecoaram como um prenúncio de samba. O coração de

Ana Davenga naquela quase meia-noite, tão aflito, apaziguou um pouco. Tudo era

paz então, uma relativa paz. Deu um salto da cama e abriu a porta. Todos

entraram, menos o seu. Os homens cercaram Ana Davenga. As mulheres ouvindo

o movimento vindo do barraco de Ana foram também. De repente, naquele

minúsculo espaço coube o mundo. Ana Davenga reconhecera a batida. Ela não

havia confundido a senha. O toque prenúncio de samba ou de macumba estava a

dizer que tudo estava bem. Tudo paz, na medida do possível. Um toque diferente,

de batidas apressadas, dizia de algo mau, ruim, danoso no ar. O toque que ela

ouvira antes não prenunciava desgraça alguma. Se era assim, onde andava o seu,

já que os das outras estavam ali? Por onde andava o seu homem? Por que

Davenga não estava ali?

Davenga não estava ali. Os homens rodearam Ana com cuidado, e as

mulheres também. Era preciso cuidado. Davenga era bom. Tinha um coração de

Deus, mas, invocado, era o próprio diabo. Todos haviam aprendido a olhar Ana

Davenga. Olhavam a mulher buscando não perceber a vida e as delícias que

explodiam por todo o seu corpo.

O barraco de Davenga era uma espécie de quartel-general, e ele, o chefe.

Ali se decidia tudo. No princípio, os companheiros de Davenga olharam Ana com

ciúme, cobiça e desconfiança. O homem morava sozinho. Ali armava e

confabulava com os outros todas as proezas. E de repente, sem consultar os

companheiros, mete ali dentro uma mulher. Pensaram em escolher outro chefe e

outro local para quartel-general, mas não tiveram coragem. Depois de certo

tempo, Davenga comunicou a todos que aquela mulher ficaria com ele e nada

mudaria. Ela era cega, surda e muda no que se referia a assuntos deles. Ele

entretanto, queria dizer mais uma coisa: qualquer um que bulisse com ela haveria

de morrer sangrando nas mãos dele feito porco capado. Os amigos entenderam. E

quando o desejo aflorava ao vislumbrar os peitos-maçãs salientes da mulher, algo

como uma dor profunda doía nas partes de baixo deles. O desejo abaixava então,

esvanecendo, diluindo a possibilidade de ereção, do prazer. E Ana passou a ser

quase uma irmã que povoava os sonhos incestuosos dos homens comparsas dos

delitos e dos crimes de Davenga.

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O peito de Ana Davenga doía de temor. Todos estavam ali, menos o dela.

Os homens rodeavam Ana. E as mulheres, como se estivessem formando pares

para uma dança, rodeavam seus companheiros, parando atrás de seu homem

certo. Ana olhou todos e não percebeu tristeza alguma. O que seria aquilo?

Estariam guardando uma dor profunda e apenas mascarando o sofrimento para

que ela não sofresse? Seria alguma brincadeira de Davenga? Ele estaria

escondido por ali? Não! Davenga não era homem de tais modos! Ele até brincava,

porém, só com os companheiros. Assim mesmo, de uma brincadeira bruta. Socos,

pontapés, safanões, tapas, seus filhos da puta… Mais parecia briga. Onde estava

Davenga? Teria se metido em alguma confusão? Sim, seu homem só tinha

tamanho. No mais era criança em tudo. Fazia coisas que ela nem gostava de

pensar. Às vezes ficava dias e dias, meses até, foragido, e quando ela menos

esperava dava com ele dentro de casa. Pois é, Davenga parecia ter mesmo o

poder de se tornar invisível. Um pouco que ela saía para buscar roupas no varal

ou falar um tantinho com as amigas, quando voltava dava com ele, deitado na

cama. Nuinho. Bonito o Davenga vestido com a pele que Deus lhe deu. Uma pele

negra, esticada, lisinha, brilhosa. Ela mal fechava a porta e se abria todinha para o

seu homem. Davenga, Davenga! E aí acontecia o que ela não entendia. Davenga,

que era tão grande, tão forte, mas tão menino, tinha o prazer banhado em

lágrimas. Chorava feito criança, soluçava, umedecia ela toda. Seu rosto, seu corpo

ficavam úmidos das lágrimas de Davenga. E todas as vezes que ela via aquele

homem no gozo-pranto, sentia uma dor intensa. Era como se Davenga estivesse

sofrendo mesmo, e fosse ela a culpada. Depois então, ele ainda de corpo nu e ela

também, ficavam ali. Ela enxugando as lágrimas dele. Era tudo tão doce, tão gozo,

tão dor! Um dia pensou em se negar para não ver Davenga chorando tanto. Mas

ele pedia, caçava, buscava. Não restava nada a fazer, a não ser enxugar o gozopranto

de seu homem.

Todos continuavam parados olhando Ana Davenga. Ela recordou que há

uns tempos atrás nenhum deles era amigo. Inimigos quase. Eles detestavam Ana.

Ela não os amava nem os odiava. Ela não sabia onde eles estavam na vida de

Davenga. E quando percebeu, viu que não poderia ter por eles indiferença. Teria

de amá-los ou odiá-los. Optou por amá-los, então. Foi difícil. Eles não a queriam.

Não era do agrado de nenhum deles aquela mulher dentro do quartel-general do

chefe, sabendo de todos os segredos. Achavam que Davenga iria se dar mal e

comprometer todo o grupo. Mas Davenga estava mesmo apaixonado pela mulher.

Quando Davenga conheceu Ana em uma roda de samba, ela estava ali,

faceira, dançando macio. Davenga gostou dos movimentos do corpo da mulher.

Ela fazia um movimento bonito e ligeiro de bunda. Estava tão distraída na dança

que nem percebeu Davenga olhando insistentemente para ela. Naqueles dias ele

andava com um temor no peito. Era preciso cuidado. Os homens estavam atrás

dele. Tinha havido um assalto a um banco e o caixa descrevera alguém parecido

com ele. A polícia já tinha subido o morro e entrado em seu barraco várias vezes.

O pior é que ele não estava metido naquela merda. Seria burro de assaltar um

banco ali mesmo no bairro, tão perto dele? Fazia os seus serviços mais longe, e

além do mais não gostava de assaltos a bancos. Já até participara de alguns, mas

achava o servicinho sem graça. Não dava tempo de ver as feições das vítimas. O

que ele gostava mesmo era de ver o medo, o temor, o pavor nas feições e nos

modos das pessoas. Quanto mais forte o sujeito, melhor. Adorava ver os chefões,

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os manda-chuvas cagando de medo, feito aquele deputado que ele assaltou um

dia. Foi a maior comédia. Ficou na ronda perto da casa do homem. Quando ele

chegou e saltou do carro, Davenga se aproximou.

– Pois é, doutor, a vida não tá fácil! Ainda bem que tem homem lá em cima

como o senhor defendendo a gente, os pobres. – Era mentira. – Doutor, eu votei

no senhor. – Era mentira também. – E não me arrependi. Veio visitar a família? Eu

também tou indo ver a minha e quero levar uns presentinhos. Quero chegar bem

vestido, como o senhor.

O homem não deu trabalho algum. Pressentiu a arma que Davenga nem

tinha sacado ainda. E quando isto aconteceu, o próprio deputado já tinha

adiantado o serviço entregando tudo. Davenga olhou a rua. Tudo ermo, tudo

escuro. Madrugada e frio. Mandou que o homem abrisse o carro e pediu as

chaves. O deputado tremia, as chaves tilintavam em suas mãos. Davenga mordeu

o lábio, contendo o riso. Olhou o político bem no fundo dos olhos, mandou então

que ele tirasse a roupa e foi recolhendo tudo.

– Não, doutor, a cueca, não! Sua cueca não! Sei lá se o senhor tem alguma

doença ou se tá com o cu sujo!

Quando arrecadou tudo, empurrou o homem para dentro do carro. Olhou

para ele e balançou as chaves e deu um adeus ao deputado, que correspondeu

ao gesto. Davenga tinha o peito explodindo em gargalhadas, mas conteve o riso.

Apertou o passo, tinha de abreviar. Eram três e quinze da madrugada. Daí a

pouco passaria por ali uma patrulhinha. Dias atrás ele havia estudado o ambiente.

Foi por aqueles dias do assalto ao deputado que Davenga conheceu Ana. A

venda do relógio lhe havia rendido algum dinheiro, fora o que estava na carteira. E

de cabeça leve resolveu ir com os amigos para o samba. Sabia porém que devia

ficar atento. Estava atento, sim. Estava atento aos movimentos e à dança da

mulher. Ela lhe lembrava uma bailarina nua, tal qual a que ele vira um dia no filme

da televisão. A bailarina dançava livre, solta, na festa de uma aldeia africana. Só

quando a bateria parou foi que Ana também parou e se encaminhou com as

outras para o banheiro. Davenga assistia a tudo. Na volta ela passou por ele,

olhou-o e deu-lhe um longo sorriso. Ele criou coragem. Era preciso coragem para

chegar a uma mulher. Mais coragem até do que para fazer um serviço.

Aproximou-se e convidou-a para uma cerveja. Ela agradeceu. Estava com sede,

queria água, e deu-lhe um sorriso mais profundo ainda. Davenga se emocionou.

Lembrou da mãe, das irmãs, das tias, das primas e até da avó, a velha Isolina.

Daquelas mulheres todas que ele não via há muitos anos, desde que começara a

varar o mundo. Seria tão bom se aquela mulher quisesse ficar com ele, morar com

ele, ser dele na vida dele. Mas como? Ele queria uma mulher, uma só. Estava

cansado de não ter pouso certo. E aquela mulher que lhe lembrava a bailarina nua

havia mexido com ele, com alguma coisa lá dentro dele. Ela lhe trouxera saudade

de um tempo paz, um tempo criança, um tempo Minas. Ia tentar, ia tentar… Ana, a

bailarina de suas lembranças, bebeu água enquanto Davenga enamorado bebia a

cerveja, sem sentir o gosto do líquido. Quando terminou, pegou a mão da mulher e

saiu. Os amigos de Davenga viram quando ele, descuidado de qualquer perigo,

atravessou o terreiro da roda de samba e caminhou feito namorado puxando a

mulher pela mão, ganhando o espaço lá fora, quase esquecido do perigo.

Desde aquele dia Ana ficou para sempre no barraco e na vida de Davenga.

Não perguntou de que o homem vivia. Ele trazia sempre dinheiro e coisas. Nos

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tempos em que ficava fora de casa, eram os companheiros dele que, através das

mulheres, lhe traziam o sustento. Ela não estranhava nada. Muitas vezes,

Davenga mandava que ela fosse entregar dinheiro ou coisas para as mulheres

dos amigos dele. Elas recebiam as encomendas e mandavam perguntar quando e

se seus homens voltariam. Davenga às vezes falava do regresso ou não. Ana

sabia bem qual era a atividade de seu homem. Sabia dos riscos que corria ao lado

dele, mas achava também que qualquer vida era um risco e o risco maior era o de

não tentar viver. E naquela noite primeira, no barraco de Davenga, depois de tudo,

quando calmos e ele já de olhos enxutos, – ele havia chorado copiosamente no

gozo-pranto – puderam conversar, Ana resolveu adotar o nome dele. Resolveu

então que a partir daquele momento se chamaria Ana Davenga. Ela queria a

marca do homem dela no seu corpo e no seu nome.

Davenga gostara de Ana desde o primeiro momento até sempre. Dera seu

nome para Ana e se dera também. Fora com ela que descobrira e começara a

pensar no porquê de sua vida. Fora com ela que começara a pensar nas outras

mulheres que tivera antes. E uma lhe trazia um gosto de remorso. Ele havia

mandado matar a Maria Agonia.

Conhecera a mulher ao visitar um companheiro na cadeia. O amigo armara

uma e não se dera bem. A prisão devia ser horrível. Só em pensar tinha medo e

desespero. Se um dia caísse preso e não conseguisse fugir, se mataria. E foi

nessa única visita ao amigo que ficou conhecendo Maria Agonia. Ela vivia dizendo

da agonia de uma vida sem o olhar do Senhor. Naquele dia, quando saíram da

cadeia, ela veio conversando com Davenga. Era bonita, uma roupa abaixo do

joelho, o cabelo amarrado para trás. Uma voz calma acompanhada de gestos

tranqüilos. Davenga estava gostando de ouvir as palavras de Maria Agonia.

Marcaram um encontro para o outro domingo na praça. Quando ele chegou, o

pastor falava, e ela estava com a Bíblia aberta na mão. Levantou os olhos e deu

com o olhar de Davenga, que abaixou piedosamente os seus. Ele saiu e se

encaminhou para o botequim em frente. Ao acabar a pregação, ela saiu do meio

dos outros, passou por ele e fez um sinal. Ele foi atrás. Assim que todos se

dispersaram, ela falou do desejo de estar com ele. Queria ir para algum lugar

sozinhos. Foram e se amaram muito. Ele chorou como sempre. Esses encontros

aconteceram muitas e muitas vezes. Primeiro a praça, a pregação, a crença.

Depois tudo no silêncio, na moita, tudo escondidinho. Um dia ele se encheu.

Propôs que ela subisse o morro e ficasse com ele. Corresse com ele todos os

perigos. Deixasse a Bíblia, deixasse tudo. Maria Agonia reagiu. Vê só, se ela,

crente, filha de pastor, instruída, iria deixar tudo e morar com um marginal, com

um bandido? Davenga se revoltou. Ah! Então era isso? Só prazer? Só o gostoso?

Só aquilo na cama? Saiu dali era novamente a Bíblia? Mandou que a mulher se

vestisse. Ela ainda se negou. Estava querendo mais. Estava precisando do prazer

que ele, só ele, era capaz de dar. Saíram juntos do motel, a uma certa altura,

como sempre, ele desceu do carro e caminhou sozinho. Não havia de ser nada.

Tinha alguém que faria o serviço para ele. Dias depois, a seguinte manchete

apareceu nos jornais: “Filha de pastor apareceu nua e toda perfurada de balas.

Tinha ao lado do corpo uma Bíblia. A moça cultivava o hábito de visitar os

presídios para levar a palavra de Deus”.

Por mais que Ana Davenga se esforçasse, não conseguia atinar com o

porquê da ausência de seu homem. Todos estavam ali. Isto significava que em

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qualquer lugar que Davenga estivesse naquele momento, ele estava só. E não era

comum, em tempos de guerra como aqueles, eles andarem sozinhos. Davenga

devia estar em perigo, em maus lençóis. As histórias e os feitos de Davenga

vieram quentes e vivos em sua mente. Dentre eles havia o feito em que havia uma

semelhante sua, morta. Nem no dia em que Davenga, de cabeça baixa, lhe

contara o crime, ela tivera medo do homem. Buscou as feições de suas

semelhantes, ali presentes. Encontrou calma. Seria porque os homens delas

estavam ali? Não, não era. A ausência de um significava sempre perigo para

todos. Por que estavam tão calmas, tão alheias assim?

Novas batidas ecoaram na porta e já não eram prenúncios de samba. Era

samba mesmo. Ana Davenga quis romper o círculo em volta dela e se encaminhar

para abrir a porta. Os homens fecharam a roda mais ainda e as mulheres em volta

deles começaram a balançar o corpo. Cadê Davenga, cadê o Davenga, meu

Deus?! O que seria aquilo? Era uma festa! Distinguiu vozes pequenas e havia as

crianças. Ana Davenga alisou a barriga. Lá dentro estava a sua, bem pequena,

bem sonho ainda. As crianças, havia umas que de longe, e às vezes de perto,

acompanhavam as façanhas dos pais. Algumas seguiriam pelas mesmas trilhas.

Outras, quem sabe, traçariam caminhos diferentes? E o filho dela com Davenga,

que caminho faria? Ah, isto pertence ao futuro. Só que o futuro ali chegava rápido.

O tempo de crescer era breve. O de matar ou morrer chegava breve, também. E o

filho dela e de Davenga? Cadê Davenga, meu Deus?

Davenga entra furando o círculo. Alegre, zambeiro, cabeça-sonho, nuvens.

Abraça a mulher. No abraço, além do corpo de Davenga, ela sentiu a pressão da

arma.

– Davenga, Davenga, que festa é esta? Por que isto tudo?

– Mulher, tá pancada? Parece que bebe? Esqueceu da vida? Esqueceu de

você?

Não, Ana Davenga não havia esquecido, mas também não sabia por que

lembrar. Era a primeira vez na vida, uma festa de aniversário.

O barraco de Ana Davenga, como o seu coração, guardava gente e

felicidades. Alguns se encostaram pelo pouco espaço do terreiro. Outros se

amontoaram nos barracos vizinhos, de onde rolavam a cachaça, a cerveja e o

mais e mais. Quando a madrugada afirmou, Davenga mandou que todos se

retirassem, recomendando aos companheiros que ficassem alerta.

Ana estava feliz. Só Davenga mesmo para fazer aquilo. E ela, tão viciada

na dor, fizera dos momentos que antecederam a alegria maior um profundo

sofrimento. Davenga estava ali, na cama, vestido com aquela pele negra,

brilhante, lisa, que Deus lhe dera. Ela também, nua. Era tão bom ficar se tocando

primeiro. Depois haveria o choro de Davenga, tão doloroso, tão profundo, que ela

ficava adiando o gozo-pranto. Já estavam para explodir um no outro, quando a

porta abriu violentamente e dois policiais entraram de armas em punho.

Mandaram que Davenga vestisse rápido e não bancasse o engraçadinho, porque

o barraco estava cercado. Outro policial do lado de fora empurrou a janela de

madeira. Uma metralhadora apontou para dentro de casa, bem na direção da

cama, na mira de Ana Davenga. Ela se encolheu levando a mão na barriga,

protegendo o filho, pequena semente, quase sonho ainda.

Davenga vestiu a calça lentamente. Ele sabia estar vencido. E agora, o que

valia a vida? O que valia a morte? Ir para a prisão, nunca! A arma estava ali,

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debaixo da camisa que ele ia pegar agora. Poderia pegar as duas juntas. Sabia

que este gesto significaria a morte. Se Ana sobrevivesse à guerra, quem sabe

teria outro destino?

De cabeça baixa, sem encarar os dois policiais a sua frente, Davenga

pegou a camisa e desse gesto se ouviram muitos tiros.

Os noticiários depois lamentavam a morte de um dos policiais a serviço. Na

favela, os companheiros de Davenga choravam a morte do chefe e de Ana, que

morrera ali na cama, metralhada, protegendo com as mãos um sonho de vida que

ela trazia na barriga.

Em uma garrafa de cerveja cheia de água, um botão de rosa, que Ana

Davenga havia recebido de seu homem na festa primeira de seu aniversário, vinte

e sete, se abria.

(

Cadernos Negros: os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje, 1998 p. 31-41) 

Bibliografia da Autora

Obra individual

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Tradução

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