“Reações de classe média podem favorecer r e p r e s s ã o”, diz Glaúcio Soares

“Reações de classe média podem favorecer r e p r e s s ã o”, diz Soares
Heloisa Magalhães
Do Rio 

Segunda-feira, 24 de junho de 2013 | Valor | A7
O sociólogo e cientista político Gláucio Soares identifica as manifestações que tomaram conta do país com um claro sinal de exaustão com relação ao modelo de governo adotado no país mas alerta para o risco de propiciar um movimento nos moldes da Marcha da Família com Deus pela Propriedade, realizada em 1964, caso a violência passe a preocupar e prejudicar por muito tempo o dia a dia da população. Soares identifica uma crise de valores que causa indignação à população, alimentada por um Estado “o b e s o”, estabelecendo privilégios, e Judiciário, Executivo e Legislativo desacreditados. Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Soares acumula experiência em temas como violência, homicídios, democracia e regimes ditatoriais. Abaixo trechos da entrevista ao Valor .

Valor: Quem puxa os movimentos que se espalham por todo país?
Gláucio Ary Dillon Soares: São vários grupos. O movimento vai incorporando e transformando se à medida que novas demandas são absorvidas. Vão aparecendo demandas, visíveis tanto no discurso escrito quanto nas palavras de ordem que vão sendo incorporadas. Uma parte considerável delas já compunha uma demanda pública e não constituiu novidade. Não é por acaso que existam demandas na áreas de saúde e educação. Há uma correspondência entre as demandas e a realidade.

Valor: Qual a sua avaliação para tanta violência?
Soares: Para responder essa pergunta precisamos saber quem são os violentos, e não sabemos. Conto o que me marcou há 20 anos. Vi takes (cenas), aqui do Brasil, de um
caminhão que está com motorista moribundo. O veículo tinha capotado e um monte de pessoas, sobretudo mulheres, crianças e adolescentes, simplesmente levavam a carga do caminhão. Deixaram de lado o motorista. A vida de uma pessoa tinha prioridade zero naquele momento e os bens materiais era o que interessava. Aquilo me deixou chocado. Na minha leitura muitos dos problemas que vivemos hoje no país se devem a uma crise ética, de valores, não só da classe política. Chama atenção, grita na classe política, exatamente a que poderia fazer diferença e não faz, e se faz é para pior.Vejo no
país uma crise de ética. 

Valor: O movimento reúne indignados e aproveitadores?
Soares: Indignados são os que estão gritando contra os baixos salários dos  professores, a baixa qualidade da educação, o fracasso do sistema de saúde. Há, evidentemente, os que aproveitam as circunstâncias para saquear. Esse oportunista poderia se apresentar em qualquer ocasião como grupo do (saque) do caminhão que caiu. Há os grupos de esquerda e de direita que obtêm apoio muito limitado nas eleições. Não elegem ninguém ou um ou dois representantes no Congresso e aproveitam a a oportunidade por ideologia também. Esse movimento é uma mistura
muito grande de grupos.

 

Valor: Na sua opinião, quais serão as consequências?
Glaucio: Uma coisa me preocupa. Noto num prazo tão pequeno, de quatro a cinco dias, mudanças de opinião. Alguns dizem que está na hora do basta, o que pode se transformar, se materializar, num apoio a políticas repressivas. Meu grande medo é um “b a c k l a s h”, (efeito bumerangue), uma reação favorecendo a repressão. Como reações de classe média intimidada como aconteceu em 1964, com as marchas da família.

Valor: Existem lideranças no movimento?
Soares: Há partidos que eleitoralmente são muito fracos e acham, falando em nome de uma revolução, que podem reproduzir condições revolucionárias no país através da desordem. É um pensamento absurdo, muito perigoso e doente.

Valor: A inflação ajudou a estimular as manifestações nas ruas ?
Soares: A inflação contribuiu para desacreditar o governo que nega a sua existência e não admite que cresceu e tem que ser enfrentada.

Valor: Então há uma crise de credibilidade com relação ao governo Dilma Rousseff?
Soares: Um sentimento mais abstrato é que o modelo (de governo) dos últimos dez anos esgotou. Tivemos uma redistribuição de renda que começou antes de Lula, acelerou com ele aliado a um momento internacional bom que não foi bem aproveitado. Hoje as taxas de crescimento brasileiras são as mais baixas dos Brics. Não estão sendo gerados recursos adicionais e o Estado continua crescendo e os gastos públicos sobem em relação ao PIB. Poderíamos dizer que o Brasil se caracteriza por ter impostos suecos e benefícios africanos. Há uma inexistência de recursos adicionais que deveriam ir para infraestrutura, para o capital humano e foram para obesidade do Estado.

Valor: Mas a presidente ainda tem aceitação alta. Não parece corresponder a insatisfação das ruas?
Soares: A perda é expressiva. Entretanto, há uma blindagem que é interessante sublinhar. Cresceu durante o governo Lula de tal maneira que podemos ter um presidente muito bem avaliado com um governo mal avaliado. Lula sempre foi mais bem avaliado que seu governo e aí entram fatores pessoais e muito mais. Dilma herdou muito do Lula e ganhou apoio que Lula não tinha por causa do moralismo percebido. Dilma colocou na rua sete ministros com problemas possíveis de corrupção. Ela falou do moralismo na gestão pública. Com isso, ganhou a classe média, com índices de aprovação mais altos PIO FIGUEROA/VALOR
Gláucio Ary Dillon Soares: “Meu grande medo é o efeito bumerangue” que Lula. Índices muito associados a desempenho que não eram derivados de um carisma no sentido que se usa com frequência, que era um dos atributos pessoais de Lula e ela não tem.

Valor: Mas a reação não é mais ampla?
Soares: As pesquisas de opinião mostram avaliações muito negativas do Legislativo, Judiciário, Executivo, partidos, sindicatos. Ou seja, as instituições políticas estão muito mal avaliadas pela população brasileira. A ira está aí. O julgamento do mensalão implicou numa recuperação parcial do prestígio do Judiciário, não obstante lemos agora que o Judiciário faz questão de cobrar caríssimo o que tem sido chamado de vale alimentação. É insultante num país onde ainda há fome e analfabetismo, não nos níveis de 20 anos atrás, mas há. O Estado não é um fator de redistribuição das políticas implementadas pelo Estado. O Estado concentra privilégios. Com gastos que estão contribuindo para a desigualdade. Até quando vamos aguentar — suponho que na manifestação muita gente pensa assim —um Estado rico num país pobre.

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