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Carolina Quarto de Despejo Homenagem: uma vida de luta!

Video baseado na obra literária Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus em homenagem ao centenário de nascimento (1914) da autora.
Pelos pelos alunos da Educação de Jovens e Adultos EJA do CEU EMEF Vila Atlantica

Professoras: Andreia Oliveira da Silva Freitas; Claudeth de Amorim Siriaco e Maisa Paes de Almeida

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Viva Carolina,Viva! – por Jackeline Romio

Atualmente os debates sobre a condição da mulher e principalmente sobre a produção de conhecimento na visão feminista vêm desenvolvendo-se e ganhando espaços na política, na sociedade e na cultura, porém esta abertura tem dando pouca visibilidade à produção cultural das mulheres negras.

Neste contexto que fazemos a apresentação sobre a produção artística literária da escritora negra Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 1914/5- São Paulo, 1977) que teve seu nome projeto no cenário literário brasileiro e internacional do princípio da década de 60 com o lançamento do livro Quarto de despejo (1960): diário de uma favelada, livro que é referência para os estudos sobre literatura latino americana nos períodos de ditaduras, sob a observação de sua literatura como testemunhal ou de diários. Nele a autora nos convida a visitar os quartos de despejo da cidade de São Paulo da década de 60, o que pensa, vive e sente uma mulher negra, mãe solteira e moradora de favela. Mostra sua visão da cidade, da sociedade e as cores da politica que carimbavam sua vida. Nos traz momentos marcantes como a costura dos sapados para presentear sua filha Vera Eunice que de aniversário a pede sapatos novos que ela vai aos lixos da cidade procurar, nos conduzindo as reflexões sobre os cruéis paradoxos urbanos, o luxo e o lixo, o pobre e o rico, a negra e o branco, a sala de visitas e os quartos de despejo.

Sua obra compreende diários, contos, poesias, provérbios e romances além de produção de composições de sambas que compõem o Lp quarto de despejo lançado pela RCA no ano de 1961[1], a obra contou com o apoio do Maestro Francisco Moraes nos arranjos e a direção artística de Júlio Nagib. É importante lembrar que sua obra foi apresentada pelas mãos do jornalista Audálio Dantas, que foi o editor da maioria da sua obra, situação também paradoxal que relata em parte no seu segundo livro (Casa de Alvenaria), onde por varias situações é colocado em jogo sua situação de autora da própria produção perante a pessoa a qual foi o primeiro a dar a oportunidade de publicá-las, ou seja, um grande debate sobre propriedade da produção intelectual da mulher negra pobre. Nesse enredo sentimos as sensibilidades das relações de poder e emoções marcadas na narrativa.

Em 1961, Carolina lança o livro Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda), nos oferecendo novas páginas de seu novo diário onde conta sua saída dos quartos de despejo e alcançando a tão sonhada casa de alvenaria, uma visita as salas de jantar. No livro a autora trata dos seus projetos, seus percalços, estigmas sofridos por ser uma mulher de favela em ascensão social após sucesso alcançado com o lançamento do seu primeiro livro. Reflete sua nova condição, como foi solicitada e rejeitada ao sair da favela ingressando nas casas tijolo, suas conversas com políticos e intelectuais, na sua transgressão de classe social. Estes diários não foram bem recebidos pelo público em geral, não alcançando o nível de vendas do anterior, poucos exemplares foram disponibilizados e ainda hoje está sem reedição.

Seu terceiro livro Pedaços da Fome (1963). São Paulo, Editora Áquila Ltda, também não recebeu grande adesão do público, sendo outro livro de seus projetos autofinanciados. Interessante notar que neste livro, ao contrário do que todos pudessem imaginar, Carolina nos trás um romance ficcional onde a principal protagonista é uma mulher branca, jovem e rica do interior de São Paulo. Carolina brilhantemente sustenta a história em formato linear de tempo, de um jovem que tomada pelos impulsos da juventude e desejo de conhecer o amor, a felicidade e a “cidade grande”, casa-se com pseudo-dentista jovem branco da cidade, de “boa aparência”, que a leva da sua pacata cidade rodeada dos mimos patriarcais do pai-coronel, chegando a cidade grande acaba em Guarulhos nos muquifos de um quintal de cortiço, muito diferente dos sonhos com arranha-céus e boa vida que imaginava ter casando-se com um dentista. Nesta situação passa pela invisibilidade da pobreza que a transfigura, porém Carolina genialmente a atribui o valor da dignidade da mãe guerreira, a dispõem de amizades de mulheres negras pobres e solidarias. Um romance de início, meio e fim bem determinado, linguagem envolvente, trama consistente além de fazer uso na trama das lições de moral típica das fabulas. Romance muito pouco explorado no geral o que é um absurdo frente ao grande valor que ele tem, afinal é de uma imaginação e um desprendimento do eu fabuloso, Carolina sente e se imagina num mundo reverso ao seu, coisa tão valorada na construção da personagem Macabei de A hora da Estrela, 1977, de Clarisse Lispector, que mescla memorias próprias e de alteridade ao criar uma jovem nordestina pobre vivendo na cidade do Rio de Janeiro.

No ano de 1965, mas por volta desta época Carolina de Jesus lança seu livro de provérbios, que se trata de ditos populares, reflexões e pensamentos sobre diversos temas, política nacional, convivência na comunidade, amor, fome, morte, etc. Onde em suas palavras pretende “transmitir através de suas reflexões um pouco de elegância e dignidade a vida atribulada do homem da cidade”.

Antes de sua morte, em 1977, entrega a jornalistas franceses manuscritos que em 1982 é publicado na França o livro Diário de Bitita, composto por contos que rememoram a infância em minas, sua trajetória migratória para Franca até a chegada em SP. Trata da vida como trabalhadora doméstica e obstáculos enfrentados em sua vida, suas relações de família, a escola e os livros. Sem duvida uma ótima leitura, muito envolvente e sensível. Este livro foi publicado no Brasil em 1986, pela editora Nova Fronteira.

Na década de 90 é revistada através das obras das ciências sociais no Brasil e
Estados Unidos. Em 1994, José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine publicam Cinderela Negra: a Saga de Carolina Maria de Jesus, um livro crítico sobre a vida e obra da autora. Em 1995, José Carlos Sebe Bom Meihy organiza e publica Antologia Pessoal, de Carolina Maria de Jesus, com suas poesias.

Em 1997, José Carlos Sebe Bom Meihy organiza e publica Meu Estranho Diário (trechos inéditos dos diários de Carolina Maria de Jesus). Em 1999, publicam o Unedited diaries of Carolina Maria de Jesus/ editado por Roberto M Levine e Jose Carlos Sebe Bom Meihy, que contem seleção do meu estranho diário (rio de janeiro, editora Xamã, 1997) que contem seleção de diários de 1958-1963, e nova introdução, notas, do diário de 1966. Eles dizem na introdução deste livro que Audálio Dantas apagou considerável proporção dos diários dela assim como aconteceu na casa de alvenaria. Contam que em 1996, Vera Eunice deu a eles cerca de 40 cadernos totalizando mais de 422 páginas que sua mãe havia escrito com copia de seus trabalhos escritos a mão nos finais de 1960.  Eles fotocopiaram tudo isso e comparando edições eles descobriram que ela tinha feito nestas anotações cópia de seus poemas, fragmento das músicas, ensaios, contos, e romances, e no meio destas páginas cerca 320 paginas de seus diários.

A repercussão e a profundidade de sua obra é tema de diversas teses, livros e releituras como a adaptação de Edi Lima, encenado no Teatro Nídia Lícia, 1961. Foi encenado também pela Cia Os Crespos, “Ensaio sobre Carolina”, 2007, virou Programas de radio pelos poetas: Maria Teresa e Allan da Rosa- Edições toró. No curta “Carolina”, 2003, o cineasta Jeferson De rele a obra “Quarto de Despejo”. Em 1971, na Alemanha, é produzido documentário sobre Carolina Maria de Jesus chamado Favela – Das Leben in Armut, 1971, 18 min, de Christa Gottmann-Elter, ainda inédito no Brasil: o filme mostra cenas do diário de Carolina Maria de Jesus, uma moradora de favela, negra, vivendo em São Paulo. Ela cozinha o que seus filhos acharam de restos no lixo. Ela chama as favelas de úlceras das cidades, sintomas da migração rural- urbano (informações da sinopse).

Desejo que muito ainda seja revelado sobre a obra e carreira desta escritora que muito ainda tem a dizer para nós através da sua transgressora visão de mundo e talento na escrita através da sua disposição em “transformar o silêncio em linguagem e ação”, usando as palavras de Audre Lorde para melhor definir o que sinto ao ler a arte de Carolina Maria de Jesus.

Bibliografia:

Jesus, C. M. de. (1960). Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda).

_________. (1961). Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda).

_________. (1963). Pedaços da fome. São Paulo: Editora Áquila Ltda.

_________. (s/data). Provérbios. São Paulo: s/editora.

_________. (1986). Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

The Unedited Diaries of Carolina Maria de Jesus. Ed. By Robert M. Levine & Jose Carlos Sebe Bom Meihy. Trans. By Nancy P. S. Naro & Cristina Mehrtens: New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1999. 224 pp. Hard cover, 39.95 [pounds sterling]; paperback 15.95 [pounds sterling].

quarto dedespejo


[1] MÚSICAS: RÁ-RE’ RI RO’ RUA – VEDETE DA FAVELA – PINGUÇO – ACENDE O FOGO – O POBRE E O RICO – SIMPLÍCIO – O MALANDRO – MOAMBA – AS GRANFINAS – MACUMBA – QUEM ASSIM ME VER CANTANDO – A MARIA VEIO

Sobre o texto: ele foi feito em base da fala sobre a produção artística da autora apresentada no Museu Afro, 15/05/2010, em comemoração ao aniversário de 5 anos da biblioteca Carolina Maria de Jesus- SP

Sobre a autora do ensaio: ela é feminista negra, periférica e formada em letras e demografia. Contato: jackieisis@hotmail.com

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GENI GUIMARÃES, A POESIA QUE VEIO DO CAMPO!

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Conto Metamorfose de Geni Guimarães

METAMORFOSE

 por Geni Guimarães

 (retirado do livro Leite de Peito, 1988)

Ano seguinte, já no primeiro dia de aula, levava na bolsa um poema de quatro versos que dizia assim:

 

Foi boa para us escravos

E parecia um mel

Acho que e irmã de Deus

Viva a Princesa Isabel

 

De imediato, não tive coragem de mostrá-lo para a professora.

Cada vez que tentava, ficava gelada e o coração já ia correndo bater na garganta.

Mas, no segundo dia de aula, uma hora em que ela disse que a minha letra era bonita, arranquei da bolsa o poema e lhe entreguei.

 

Ela foi até a mesa e sentou-se com meu papelzinho na mão. Leu e releu. Pegou a caneta, riscou qualquer coisa por sobre meus versos e mandou o Pedro chamar o diretor. Imediatamente me deu vontade de urinar e vomitar. Será que havia feito alguma coisa errada? E se houvesse feito, iria para os grãos de milho nos joelhos? Chegou o diretor seguido do Pedro. Dona Cacilda deu-lhe o papel. O diretor leu. Ficaram algum tempo conversando baixinho e apontando alguma coisa que eu havia escrito. Depois ele saiu e a professora devolveu-me o poema e continuou a aula calma- mente, sem um gesto que me explicasse o bom ou o ruim dos versos. Mas a qualquer barulhinho ficava eu toda tremula, ai vida por um sinal, uma explicação por mais banal que fosse. Assim fiquei até o final da aula, mas que não a minha fila saia e passava pela porta da diretoria, o diretor saiu, procurou-me com os olhos e disse: – Parabéns. -Não foi nada. Obrigada. Fui para casa feliz. Sabia’s empoleirados na cabeça da alma. Devia ser dia dez ou onze do mês de maio. Dona Cacilda, logo apos o recreio, disse- nos: – No dia treze agora, vamos fazer uma festinha para a Princesa Isabel, que libertou os escravos. Quem quer recitar?

 

Várias crianças gritaram: Eu! Eu! Eu! Pluft, pluft … meu coração lá foi de novo pulsar na garganta. Era a hora e a vez de expor meu poema. Não podia perder a chance. Mas como conseguir coragem? E se errasse? Assim não da!-gritou a professora. -Levantem a mão. Levantei a minha, que timidamente Luzia negritude em meio a cinco ou seis mãozinhas alvas, assanhadas. Você… Você. . . Voc’e… Não fui escolhida. Tantos não era possível, explicou-nos ela. Mas eu não podia perder a oportunidade. Corri atrás dela, sôfrega. Dona Cacilda, eu tenho aquela que fiz outro dia, que eu mostrei pra senhora e a senhora chamou o diretor e ele falou parabéns e eu deixo ela maior… Falei tudo sem respirar. Sem piscar. Medo de não convencer, de apertar os olhos e as lágrimas escaparem do controle da emoção. Saturei. Esta bem. Amanha você traz a poesia e a gente ensaia.

 

A cariciou meu rosto e riu chochadamente. Sua mão parecia pena de galinha e seus lábios, no riso, tinham muito a ver com as casquinhas de tomate caipira que minha mãe colocava no tempero do arroz. Fui para casa meio angustiada. Já quase me arrependia de insistir. O aumentar e decorar o poema não era nada. Difícil era não tremer, não chorar, não esquecer na hora. Pensei em não ir as aulas por uns dias, inventar uma dor de barriga … Mas não podia falhar com a Princesa Isabel. Ela merecia. Se não fosse ela … Que pecado seria maior: mentir que estava doente ou não homenagear a Santa Princesa Isabel? Optei por ir e não ficar em pecado. Antes tremer, chorar, do que ser castigada por Deus. Por Deus ou por Santa Isabel? Pelos dois, claro. Ela teria que pedir o consentimento dele para me punir, já’ que ele e o Pai, o Chefe, dono de todas as decis6es.

 

Haveria na certa uma reunião no céu entre santos e santas, anjos e anjas . . . Não. Anjos e anjás não. Crianças não opinam, não decidem nada. Nem votam. Ah! Mas se eles pudessem … Se pudessem, seria fácil. Eu mesma conhecia varios anjinhos … A Tilica 1, que morreu de lombriga aguada, a Luzia 2, que morreu de bucho-virado, o Jorge 3, que morreu de cair no poco … E. E tinha mais ainda e, por sorte, todos da minha cor. Seriam votos a meu favor, certamente. Fora a Ana, que era branca, o Joao Claudio… Acho que até eles … Mas não adianta ficar pensa não. Criança só ouve que não pode. O fato e que no céu todo mundo ficaria sabendo. Uma vergonha imensa invadiu- me toda, como no dia em que fui pega tentando descobrir a passagem do ovo do galo para a barriga da galinha. Credo-em-cruz! Não havia mesmo outro jeito. O negocio era assumir logo de uma vez, tentar fazer tudo bonito e direito.

 

Comi depressa no almoço. Engoli quase inteiros os alimentos. Engasguei com as espinhas de mandiuva. Pus-me a escrever afoitamente. Aumentei. Criei quatro novos versos.

 

Os homes era teimosos

E os donos deles era bravo

Por isso a linda Isabel

Soltou tudo us escravo.

 

Reli os versos antigos e achei que deveriam ficar por utltimo, para encerrar a declamac,o com o “Viva a Princesa Isabel.” Ao meu poema dei um titulo: “Santa Isabel”. Assim ficou:

 

“Santa Isabel”

Os homes era teimosos

E os donos deles era bravo

Por isso a linda Isabel

Soltou tudo us escravo.

Foi boa que nem um doce

E parecia um mel

Acho que e irmã de Deus

Viva a Princesa Isabel.

 

Em meia hora havia decorado tudo. Dai comecei a declamar pausadamente. As vezes começava do fim e voltava para o começo. Tudo certinho. Nem um pulo nas frases, nem um gaguejar, nada. No dia seguinte, coloquei meus escritos sobre a mesa para a apreciação da professora. Ela os pegou, leu, fez as correcões ortográficas, como, por exemplo, colocar ns no final da palavra homes, concordar adjetivos, etc. Devolveu-me. -Decore que amanha voce recitara’, certo? Não contei que tudo estava na ponta da lingua. A festa seria depois do recreio, no dia seguinte. Mas, assim que entramos na classe, ela se pos a falar sobre a data: -Hoje comemoramos a libertac,o dos escravos. Escravos eram negros que vinham da Africa. Aqui eram forcados a trabalhar, e pelos servicos prestados nada recebiam. Eram amarrados nos troncos e espancados as vezes até a morte. Quanão … E foi ela discursando por uns quinze minutos. Vi que sua narrativa não batia com a que nos fizera a Vo Rosairia. Aqueles eram bons, simples, humanos, religiosos. Eram bobos, covardes, imbecis, estes me apresen- tados entao. Não reagiam aos castigos, não se defendiam, ao menos. Quanão dei por mim, a classe inteira me olhava com pena ou sarcasmo. Eu era a unica pessoa da classe representanão uma raca digna de compaixao, desprezo! Quis sumir, evaporar, não pude. Apenas pude levantar a mão suada e tremula, pedir para ir ao banheiro. Sentada no vaso estiquei o dedo indicador e no ar escrevi: “Lazarento”. Era pouco. Acrescentei “morfetico”. Acentuei o e e voltei para a classe.

No recreio, a Sueli veio presentear-me com uma maca e a Raquel, filha do administrador da fazendo, ofereceu-se para trocar meu lanche de abobrinha abafada pelo dela, de presunto e mozarela. Não os comi, e claro. A compensac,o desvalia. Não era como o leite, que, derrama- do, passa-se um pano sobre e pronto. Era sangue. Quem poderia devolv’e-lo … Vida? Que se enxugasse o fino rio a correr mansamente. Mas como estancai-lo la dentro, onde a ferida aberta era um silencio todo meu, dor sem parceria? Na hora da festa, estava um trapo. No entanto, não me preocupavam mais os erros ou acertos, sucessos ou insucessos. Era a vergonha que me abatia. Pensava que era a grande da classe so porque era a única a fazer versos … Quantas vezes deviam ter rido de mim, depois das minhas tontices, em inventar cantigas de roda … Vinha mesmo era de uma raça medrosa, sem historias de heroísmo. Morriam feito caes . . . Justo era mesmo homenagear Caxias, Tiradentes e todos os Dom Pedro da Historia. Lógico. Eles lutavam, defendiam-se e ao seu pais. Os idiotas dos negros, nada. Por isso que meu pai tinha medo do seu Godoi, o administrador, e minha mãe nos ensinava a não brigar com o Flavio Negro, era tudo mole mesmo. Atér meu pai, minha mãe … Por isso e que eu tinha medo de tudo. O filho puxa o pai, que puxa o avo, que puxou o pai dele, que puxou … E eu consequentemente ali, idiota fazenão parte da linha. Caf em mim com a professora falanão: Esqueceu? Não faz mal. Na outra festa voce recita. Logo chega o dia de Anchieta, do soldado … Vamos sentar. Não tem importancia. Levou-me com cuidado e me fez sentar numa cadeira ao lado dos outros profes- sores, na frente. Eu sentia muito sono e sede. Estranhei o fato do meu coração estar quieto, sem saltar para a garganta. Apalpei o pescoco de todas as maneiras. Jái ia constatar se estava no peito, mas desisti. “Será’ que ele morreu? Para o inferno! Se quiser morrer, que morra”, pensei, olhanão a sujeira do nariz, que saiu preguicosa e caiu sobre as pregas estreitas da sainha azul novinha, novinha. Naquele dia ninguem correu na volta para casa. Iam todos a minha volta, preocupados porque eu não conseguia anãor depressa. Sentia-me sem peso e quanão mudava o passo achava que o chao a frente estava em desnivel, longe, mole. Quanão cheguei em casa, minha mãe falou: Seu almoco esta’ em cima do fogao. Depois voce leva o prato la no tanque que eu já estou inão lavar os trens. Desvencilhei-mãe do matérial escolar e peguei o prato de comida. Jái ia sainão para jogar tudo para as galinhas do terreiro quanão pensei que, se eu levasse o prato logo, minha mãe ia desconfiar; porque não se almoca em tao pouco tempo. Resolvi aguardar. Destampei a vasilha e comecei a remexer a comida. Separei os grãos de feijáo preto com o cabo da colher e atirei-os no meio das labaredas que mantinham aceso o fogao. Depois atirei a comida no quintal e fui levar o prato, como minha mãe havia recomenãodo. Até entao, as mulheres da zona rural não conheciam “as mil e uma utilidades do bom-bril” e, para fazer brilharem os aluminios, elas trituravam tijolos e com o resultante faziam a limpeza dos utensílios. A idéia me surgiu quando minha mãe pegou o preparado e com ele se pos a tirar da panela o carvão grudado no fundo. Assim que terminou a arrumação, ela voltou para casa, e eu juntei o po restante e com ele esfreguei a barriga da perna. Esfreguei, esfreguei e vi que diante de tanta dor era impossível tirar todo o negro da pele. Dai, então, passei o dedo sobre o sangue vermelho, grosso, quente e com ele comecei a escrever pornografias no muro do tanque d’água. Quando cheguei em casa, minha mãe, ao me ver toda esfolada, deixou os afazeres, foi para o fundo do quintal, apanhou um punhado de rubim e, com a erva, preparou um unguento para minhas feridas. Enquanto umedecia um paninho no preparado e colocava na minha perna, dizia: -Deus me livre! Eu canso de falar: não sobe nos muros, não brinca de correr, e que nada! Entra por um ouvido e sai pelo outro. Parece moleque. Mentira! Nem moleque faz isto. Ve se o Zezinho … Eu ouvia sua voz distante, brava doce. Balsamo. Dentro de uma semana, na perna só uns riscos denunciavam a violência contra mim, de mim para mim mesma. Só ficaram as chagas da alma esperando o remédio do tempo e a justiça dos homens.

 

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