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Viva Carolina,Viva! – por Jackeline Romio

Atualmente os debates sobre a condição da mulher e principalmente sobre a produção de conhecimento na visão feminista vêm desenvolvendo-se e ganhando espaços na política, na sociedade e na cultura, porém esta abertura tem dando pouca visibilidade à produção cultural das mulheres negras.

Neste contexto que fazemos a apresentação sobre a produção artística literária da escritora negra Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 1914/5- São Paulo, 1977) que teve seu nome projeto no cenário literário brasileiro e internacional do princípio da década de 60 com o lançamento do livro Quarto de despejo (1960): diário de uma favelada, livro que é referência para os estudos sobre literatura latino americana nos períodos de ditaduras, sob a observação de sua literatura como testemunhal ou de diários. Nele a autora nos convida a visitar os quartos de despejo da cidade de São Paulo da década de 60, o que pensa, vive e sente uma mulher negra, mãe solteira e moradora de favela. Mostra sua visão da cidade, da sociedade e as cores da politica que carimbavam sua vida. Nos traz momentos marcantes como a costura dos sapados para presentear sua filha Vera Eunice que de aniversário a pede sapatos novos que ela vai aos lixos da cidade procurar, nos conduzindo as reflexões sobre os cruéis paradoxos urbanos, o luxo e o lixo, o pobre e o rico, a negra e o branco, a sala de visitas e os quartos de despejo.

Sua obra compreende diários, contos, poesias, provérbios e romances além de produção de composições de sambas que compõem o Lp quarto de despejo lançado pela RCA no ano de 1961[1], a obra contou com o apoio do Maestro Francisco Moraes nos arranjos e a direção artística de Júlio Nagib. É importante lembrar que sua obra foi apresentada pelas mãos do jornalista Audálio Dantas, que foi o editor da maioria da sua obra, situação também paradoxal que relata em parte no seu segundo livro (Casa de Alvenaria), onde por varias situações é colocado em jogo sua situação de autora da própria produção perante a pessoa a qual foi o primeiro a dar a oportunidade de publicá-las, ou seja, um grande debate sobre propriedade da produção intelectual da mulher negra pobre. Nesse enredo sentimos as sensibilidades das relações de poder e emoções marcadas na narrativa.

Em 1961, Carolina lança o livro Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda), nos oferecendo novas páginas de seu novo diário onde conta sua saída dos quartos de despejo e alcançando a tão sonhada casa de alvenaria, uma visita as salas de jantar. No livro a autora trata dos seus projetos, seus percalços, estigmas sofridos por ser uma mulher de favela em ascensão social após sucesso alcançado com o lançamento do seu primeiro livro. Reflete sua nova condição, como foi solicitada e rejeitada ao sair da favela ingressando nas casas tijolo, suas conversas com políticos e intelectuais, na sua transgressão de classe social. Estes diários não foram bem recebidos pelo público em geral, não alcançando o nível de vendas do anterior, poucos exemplares foram disponibilizados e ainda hoje está sem reedição.

Seu terceiro livro Pedaços da Fome (1963). São Paulo, Editora Áquila Ltda, também não recebeu grande adesão do público, sendo outro livro de seus projetos autofinanciados. Interessante notar que neste livro, ao contrário do que todos pudessem imaginar, Carolina nos trás um romance ficcional onde a principal protagonista é uma mulher branca, jovem e rica do interior de São Paulo. Carolina brilhantemente sustenta a história em formato linear de tempo, de um jovem que tomada pelos impulsos da juventude e desejo de conhecer o amor, a felicidade e a “cidade grande”, casa-se com pseudo-dentista jovem branco da cidade, de “boa aparência”, que a leva da sua pacata cidade rodeada dos mimos patriarcais do pai-coronel, chegando a cidade grande acaba em Guarulhos nos muquifos de um quintal de cortiço, muito diferente dos sonhos com arranha-céus e boa vida que imaginava ter casando-se com um dentista. Nesta situação passa pela invisibilidade da pobreza que a transfigura, porém Carolina genialmente a atribui o valor da dignidade da mãe guerreira, a dispõem de amizades de mulheres negras pobres e solidarias. Um romance de início, meio e fim bem determinado, linguagem envolvente, trama consistente além de fazer uso na trama das lições de moral típica das fabulas. Romance muito pouco explorado no geral o que é um absurdo frente ao grande valor que ele tem, afinal é de uma imaginação e um desprendimento do eu fabuloso, Carolina sente e se imagina num mundo reverso ao seu, coisa tão valorada na construção da personagem Macabei de A hora da Estrela, 1977, de Clarisse Lispector, que mescla memorias próprias e de alteridade ao criar uma jovem nordestina pobre vivendo na cidade do Rio de Janeiro.

No ano de 1965, mas por volta desta época Carolina de Jesus lança seu livro de provérbios, que se trata de ditos populares, reflexões e pensamentos sobre diversos temas, política nacional, convivência na comunidade, amor, fome, morte, etc. Onde em suas palavras pretende “transmitir através de suas reflexões um pouco de elegância e dignidade a vida atribulada do homem da cidade”.

Antes de sua morte, em 1977, entrega a jornalistas franceses manuscritos que em 1982 é publicado na França o livro Diário de Bitita, composto por contos que rememoram a infância em minas, sua trajetória migratória para Franca até a chegada em SP. Trata da vida como trabalhadora doméstica e obstáculos enfrentados em sua vida, suas relações de família, a escola e os livros. Sem duvida uma ótima leitura, muito envolvente e sensível. Este livro foi publicado no Brasil em 1986, pela editora Nova Fronteira.

Na década de 90 é revistada através das obras das ciências sociais no Brasil e
Estados Unidos. Em 1994, José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine publicam Cinderela Negra: a Saga de Carolina Maria de Jesus, um livro crítico sobre a vida e obra da autora. Em 1995, José Carlos Sebe Bom Meihy organiza e publica Antologia Pessoal, de Carolina Maria de Jesus, com suas poesias.

Em 1997, José Carlos Sebe Bom Meihy organiza e publica Meu Estranho Diário (trechos inéditos dos diários de Carolina Maria de Jesus). Em 1999, publicam o Unedited diaries of Carolina Maria de Jesus/ editado por Roberto M Levine e Jose Carlos Sebe Bom Meihy, que contem seleção do meu estranho diário (rio de janeiro, editora Xamã, 1997) que contem seleção de diários de 1958-1963, e nova introdução, notas, do diário de 1966. Eles dizem na introdução deste livro que Audálio Dantas apagou considerável proporção dos diários dela assim como aconteceu na casa de alvenaria. Contam que em 1996, Vera Eunice deu a eles cerca de 40 cadernos totalizando mais de 422 páginas que sua mãe havia escrito com copia de seus trabalhos escritos a mão nos finais de 1960.  Eles fotocopiaram tudo isso e comparando edições eles descobriram que ela tinha feito nestas anotações cópia de seus poemas, fragmento das músicas, ensaios, contos, e romances, e no meio destas páginas cerca 320 paginas de seus diários.

A repercussão e a profundidade de sua obra é tema de diversas teses, livros e releituras como a adaptação de Edi Lima, encenado no Teatro Nídia Lícia, 1961. Foi encenado também pela Cia Os Crespos, “Ensaio sobre Carolina”, 2007, virou Programas de radio pelos poetas: Maria Teresa e Allan da Rosa- Edições toró. No curta “Carolina”, 2003, o cineasta Jeferson De rele a obra “Quarto de Despejo”. Em 1971, na Alemanha, é produzido documentário sobre Carolina Maria de Jesus chamado Favela – Das Leben in Armut, 1971, 18 min, de Christa Gottmann-Elter, ainda inédito no Brasil: o filme mostra cenas do diário de Carolina Maria de Jesus, uma moradora de favela, negra, vivendo em São Paulo. Ela cozinha o que seus filhos acharam de restos no lixo. Ela chama as favelas de úlceras das cidades, sintomas da migração rural- urbano (informações da sinopse).

Desejo que muito ainda seja revelado sobre a obra e carreira desta escritora que muito ainda tem a dizer para nós através da sua transgressora visão de mundo e talento na escrita através da sua disposição em “transformar o silêncio em linguagem e ação”, usando as palavras de Audre Lorde para melhor definir o que sinto ao ler a arte de Carolina Maria de Jesus.

Bibliografia:

Jesus, C. M. de. (1960). Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda).

_________. (1961). Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda).

_________. (1963). Pedaços da fome. São Paulo: Editora Áquila Ltda.

_________. (s/data). Provérbios. São Paulo: s/editora.

_________. (1986). Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

The Unedited Diaries of Carolina Maria de Jesus. Ed. By Robert M. Levine & Jose Carlos Sebe Bom Meihy. Trans. By Nancy P. S. Naro & Cristina Mehrtens: New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1999. 224 pp. Hard cover, 39.95 [pounds sterling]; paperback 15.95 [pounds sterling].

quarto dedespejo


[1] MÚSICAS: RÁ-RE’ RI RO’ RUA – VEDETE DA FAVELA – PINGUÇO – ACENDE O FOGO – O POBRE E O RICO – SIMPLÍCIO – O MALANDRO – MOAMBA – AS GRANFINAS – MACUMBA – QUEM ASSIM ME VER CANTANDO – A MARIA VEIO

Sobre o texto: ele foi feito em base da fala sobre a produção artística da autora apresentada no Museu Afro, 15/05/2010, em comemoração ao aniversário de 5 anos da biblioteca Carolina Maria de Jesus- SP

Sobre a autora do ensaio: ela é feminista negra, periférica e formada em letras e demografia. Contato: jackieisis@hotmail.com

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Lançamento do “O mar de Manu”, Cidinha


Caríssimas e Caríssimos,
dia 19/10 desembarco em Sampa para lançar meu livro novo, “O mar de Manu”, primeira publicação da Kuanza Produções. Será na livraria Suburbano Convicto, no Bexiga, conforme convite anexo. Apareçam para bater um papo e convidem os amigos.

O MAR DE MANU

O mar de Manu, terceiro livro para todas as idades, de Cidinha da Silva, é um conto pleno de poesia e imagens. São pequenas histórias de sabedoria narradas no fluxo de um dia e uma noite vividos por Manu.

A gente de Minas Gerais, assim como Manu, menino oriundo de algum lugar entre o Mali, o Níger e o Burkina Faso, precisa inventar o mar. As características geográficas desses lugares levam seus moradores a produzir metáforas sem água para representar o infinito. É o que faz Manu, personagem que aprendeu a sonhar com a mãe.

Cidinha da Silva, desta feita em um texto curto, prossegue no caminho da escritura em linguagem simples e direta que dialoga com as instâncias mais sensíveis do leitor.

O mar de Manu é a primeira publicação da Kuanza Produções, uma editora dedicada à formação do leitor literário e à ampliação do espaço editorial para as africanidades no Brasil.


Cidinha

cidinhadasilva.blogspot.com
kuanzaproducoes.com.br

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Oswaldo Faustino autografa o livro A Legião Negra na Livraria Martins Fontes‏

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Noite de autógrafos do livro A Legião Negra - A luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932

A Selo Negro Edições e a Livraria Martins Fontes – Paulista promovem, em São Paulo, no dia 20 de julho, quarta-feira, das 19h às 21h30, a noite de autógrafos do livro A Legião NegraA luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932. Nesse romance histórico, o jornalista Oswaldo Faustino aborda uma faceta pouco conhecida da história nacional: a particip ação voluntária de um grande número de afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, contra o regime de Getulio Vargas a quem, contraditoriamente, grande parte desses combatentes reverenciava como “pai dos pobres”. A livraria fica na Av. Paulista, 509 (próxima à estação Brigadeiro do metrô).

A ideia para o livro surgiu quando o ator Milton Gonçalves contou a Faustino que gostaria de fazer um filme sobre a Legião Negra e pediu ao escritor que pesquisasse o assunto. Recorrendo a documentos e publicações de época, obras acadêmicas e entrevistas com familiares dos combatentes, Faustino entrou em contato com a história de personagens reais que, no romance, interagem com os concebidos pelo autor. A pesquisa permitiu-lhe também reconstruir o contexto social, cultural e econômico da São Paulo da década de 1930 – ora em situações conflituosas ora em aparente harmonia se interrelacionavam paulistas quatrocentões, negros, mestiços, imigrantes europeus e migrantes oriundos principalmente de estados do Nordeste. Cada qual com seus costumes e em espaços determinados, é verdade. Aos negros e pardos restavam apenas os cortiços, porões e subúrbios, as rodas de tiririca, o jogo ilegal e os biscates.

O livro começa apresentando ao leitor o centenário Tião Mão Grande, que nos dias de hoje relembra sua participação, como voluntário, na Revolução de 1932. Sua memória recupera episódios e personagens que mudaram sua vida e a dos paulistas para sempre: alguns reais, como Maria Soldado, empregada doméstica que decidiu engrossar as fileiras revolucionárias; o advogado Joaquim Guaraná Santana e o grande orador Vicente Ferreira; outros fictícios, mas inspirados em arquétipos históricos, como Teodomiro Patrocínio, protegido de uma rica família que de início renega a ascendência africana e a negritude, mas depois se torna um grande líder militar da Legião Negra; Luvercy, jovem negro alistado contra a vontade pelo próprio pai, também combatente de ideais patrióticos; John, um jamaicano foragido dos EUA, que também participava das lutas antirracistas e convivia com pensadores naquele país, como seu conterrâneo Marcus Garvey.

A cada capítulo, Faustino recria os valores de uma época pautada pelo patriotismo, mas também por um intenso preconceito racial. Um dos méritos do livro é mostrar que, apesar de alijados de direitos e com chances mínimas de ascensão social, milhares de negros aderiram a uma causa estranha à sua realidade – causa que, embora justa, traria ínfimas mudanças à sua situação de excluídos.

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Poemas Malungos – Cânticos Irmãos, Conceição Evaristo

Olha só que noticia firmeza!!! Nossa rainha, que já era doutora nas palavras ha muito tempo, agora recebe a carta magna do saber! Parabéns!

Tílulo: Poemas Malungos – Cânticos Irmãos
(uma análise comparativa entre os textos dos poetas: Nei Lopes, Edmilson Almeida Pereira e Agostinho Neto)
Data: 13 de Maio – sexta-feira
Horário: 14 horas
Local: Universidade Federal Fluminense – UFF/Niterói – Campo do Gragoatá – Bloco C – Sala 505
  

 

                                         

Recordar é preciso

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.

Conceição Evaristo. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

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